Across The Universe
Para entender Across The Universe, é preciso ter uma boa noção sobre as letras dos Beatles.
Não que o espectador “normal” não consiga entender o filme. Mas as conexões e significações aparecem mais em alto relevo para aqueles que já prestaram mais atenção enquanto escutavam os principais sucessos dos carinhas de Liverpool. Aqui, as músicas dos Beatles e a Guerra do Vietnã formam o pano de fundo para uma história de amor entre uma adolescente da aristocracia estadunidense e um imigrante inglês aspirante a artista.
É exatamente em Liverpool que começa a história de Jude (Jim Sturgess), que parte para os Estados Unidos em busca do pai, deixando para trás o trabalho nos estaleiros do porto da cidade. Enquanto isso, Lucy (Ewan Rachel Wood) espera o começo da faculdade e sonha com a vida de casada com seu noivo, prestes a embarcar para o Vietnã. Quando chega ao seu destino, Jude conhece Max (Joe Anderson), irmão de Lucy. Os dois tornam-se grandes amigos e partem para Nova York, dividem apartamento com outros personagens importantes, artistas proeminentes da cena roqueira da cidade. São Sadie (Dana Fuchs), clara referência à Janis Joplin e JoJo (Martin Luther McCoy), caricatura de Jimmy Hendrix, produzida com esmero e requintes de detalhe.

Quando o noivo de Lucy é morto na guerra, ela parte para junto do irmão e começa uma vida de ativista política na Big Apple. Não tarda para Max também ser convocado e ter de se apresentar para o “tio Sam”. É inevitável também que o romance entre Lucy e Jude se configure, começando subitamente de maneira apaixonada, e depois cambaleando com a chegada de um novo amigo de Lucy. Com a Guerra do Vietnã entrando nas salas de estar através da televisão, chega também a notícia do assassinato de Martin Luther King e o conflito entre estudantes e polícia explode nas grandes cidades americanas. É em uma época de segregação, de turbulência não apenas social, mas também psicológica, em que as coisas começam a ruir para grande parte dos personagens.
É mais precisamente um efeito de encaixe como um quebra-cabeça que a diretora Julie Taymor fez ao longo do filme. As músicas não são apenas jogadas em uma cena, elas fazem parte da narrativa e foram interpretadas pelos próprios atores, criando uma trilha recheada de sucessos, sempre em novas versões. Cerca de 30 letras foram matéria-prima para o roteiro e por isso parece que, de certa forma, enquanto existe uma comunicação entre as músicas através dos personagens, existe também uma analogia entre o tempo de duração do filme e a da trajetória da banda. Além disso, todo o universo da contracultura e do movimento hippie aparece em diversas citações estrategicamente posicionadas. O que irá levar boa parte dos fãs a ataques de loucura simplesmente por identificar esses códigos (
Apesar de não ser tão fã assim dos Beatles, eu delirei em várias partes).
Quem conhece bem as letras irá identificar alguns símbolos mais importantes, outros estão soltos, como o lendário Cavern Club em Liverpool, que aparece logo no inicio do filme e o Cafe Wha? em Nova York, que aparece como Café Huh? . As melhores seqüências são: a apresentação de Max ao exército encenada com a música “I Want You”; apesar da participação tosca de Bono Vox como Dr. Robert, a cena de uma viagem psicodélica ao som de “I Am The Walrus” é impagável. Bom, outros detalhes levariam horas de explicações, mas o principal é que Across The Universe é um bom pedaço de nostalgia, e para um musical, cumpre o que promete.
Muito bom!
Direção: Julie Taymor (2007).